Flores belas
"Estás com a mesma roupa de ontem?"
Sim, e nem tomei banho, admito. Deixei-me dormir, onde estava e com quem estava. É mais fácil que ir para casa pensar em ti. Ou deitar-me na cama, entrar no quarto, coisas que só o são hoje, porque contigo as dividi. Tens um algoritmo qualquer, escondido em ti. Não ligues, estou a escrever para achar algum ritmo. Ser como tu. Que vives a dar vida ao que a vida dá, como se tudo o que vivificas só tivesse vida por te ter tido cá. A vida é tudo, quanto tudo na vida há. A vida foi vivida, enquanto a vivi contigo cá.
Hoje não me chamo Pedro, não tenho nome, e se tiver forma, juro que ninguém me conseguirá tocar. Hoje não tenho nome, e nem vou olhar para trás se alguém o chamar. Ouvir o meu nome, noutras cordas vocais que não as tuas... É caminhar na minha cidade, sem sequer conhecer as ruas.
Estou com a mesma roupa de ontem. Dormi acompanhado, e passei frio na mesma. Não tenho o quente do teu corpo, e perdi a mente nesse sufoco. Põe aguardente no meu copo. Olho para quem o enche, e desabafo em surdina. "Perdi-a."
Mas ele fica confuso porque me vê com uma amiga. Sim, uma amiga. Claro, uma "amiga". Descomprimo o coração com frases que em casa ensaiei, sobre ter o coração partido e como tudo por ti eu dei! "Eu amei-a como ninguém!" Só para a derreter, e depois a levar para a cama para me entreter. É ridículo, eu sei. Até lhe posso beijar os lábios, mas é a ti que te estou a ver. Penetra-la, e nem o rosto dela reconhecer. Somos amigos há tantos anos, tantas vezes que acabámos a foder, e hoje nem é ela que comigo se deita, por ser contigo que eu me quero perder.
Estou com a mesma roupa de ontem, não tomei banho, e evito a minha casa como se ela me sugasse o sangue, e lá dentro eu só andasse sempre, como na rua nunca ando. A arrastar-me... De canto, para canto. Sem encanto, já não canto as serenatas, que te cantava, mas são elas as quais, com que hoje me espanco. Como se fossem flores belas.
Tenho saudades tuas. E não sei lidar com elas. E estou a lidar com isso. Acho que já tens outra pessoa... E estou a lidar com isso.
Seja com bebedeiras com as quais desligo, amigas que existem só num raio do umbigo, por terem mamas e cona onde eu por vezes me abrigo. Seja com ganzas com as quais me amenizo, seja com conversas de balcão que o bartender ignora com um sorriso...
Não vou a casa há alguns dias... Vivo a vida em balcões, em camas de amigas, em casa de conhecidas, a ouvir música no carro à porta de casa durante horas seguidas... À procura da tua companhia. Eras o amor da minha vida. Mas pior que isso é teres sido sempre minha amiga. Porque hoje quero falar do meu coração partido, e sei que qualquer pessoa que ouça, ouve, mas não liga.
Ninguém me ouve como tu me ouvias, nem que me aconchega, da forma que tu me aquecias. Nunca amei ninguém como te amo, e tu prometeste que não o esquecias. Ninguém me fode como tu me fodias. E hoje acho que percebo, que nunca ninguém me amou como tu... Mas isso é só porque tu, nada por mim sentias. Nada nutrias.
E eu ainda te amo.
E posso deitar-me com trinta, que é em ti que penso assim que começa o dia. E também quando ele termina. Espero que sejas feliz, e que ele te dê o que precisas.
Ia agora subir para casa, assim que do carro saísse, mas o telefone tremeu com uma mensagem de uma amiga. "Estou aqui para ti, o que precisas?"
Acho que hoje não durmo em casa, e vou deixar novamente que este dia se repita.
Viver com amor que não posso dar.
Como uma casa, que é minha... Mas onde não consigo entrar.
- P
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